terça-feira, 25 de julho de 2017

A propósito de biscoiteiras

 Não é fácil escrever sobre este tema. Como não é igualmente fácil distinguir por vezes as biscoiteiras das confeiteiras e das bomboneiras. Estas últimas foram mais precoces na história da civilização e do gosto pela sofisticação da mesa, pelo que merecem um estudo à parte. Ficamo-nos então pelas biscoiteiras a propósito destes exemplares de vidro que adquiri recentemente.
Não fossem os americanos e a história das biscoiteiras seria curta. Dito assim parece-nos estranho, mas eu explico.
Embora haja quem diga que as biscoiteiras surgiram no século XVIII em Inglaterra, o que poderá ser verdade dado o seu gosto pelos biscoitos, não consegui encontrar representação de nenhuma até ao momento. O período áureo destas delicadas peças foi o século XIX.
Os principais exemplares são em vidro, com estética Art Nouveau, em vidro simples, pintadas ou irisadas, de que os alemães e os franceses foram os principais produtores. Com uma armação metálica que servia de pega, tinham uma tampa correspondente, embora este sistema nunca tivesse sido o mais eficaz, para que estas não amolecessem. Talvez por isso eram utilizadas as caixas em folha-de-flandres, que eram herméticas. Embora mais úteis sob este ponto de vista não se prestavam contudo ao fim a que as belas boleiras se destinavam. Eram normalmente objectos únicos, usados no período do pós jantar, isto é, do café e dos licores. É conhecido o uso de determinado tipo de biscoitos, as ratafias, introduzidos no licor com o mesmo nome, deleite dos apreciadores no século XVIII[1].
Por volta da década de 1920 surgiram na Europa modelos em cerâmica com forma de caixa com bases rectangulares ou ovais, algumas com pegas e fechos metálicos. Por vezes apresentavam-se com características Art Deco, com desenhos geométricos aerografados.

Mas foi nos Estados Unidos que a partir de 1929 se começaram a produzir biscoiteiras em cerâmica de formas variadas, de animais, bonecos, etc. Muito apreciadas foram desde sempre objecto de coleccionismo. O coleccionador mais conhecido foi Andy Warhol, cuja colecção foi vendida por uma fortuna o que impulsionou ainda mais esse interesse.

Colecção de biscoiteiras de Andy Warhol. Imagem retirada da internet
Aos europeus nunca entusiasmaram muito estes modelos. Em Portugal existem biscoiteiras em cerâmica feitas na Fábrica de Sacavém, ou outros modelos mais imaginativos da Fábrica Aleluia e pouco mais. O nosso gosto ficou pelas de vidro e o nosso sentido prático pelas caixas de lata. Servidos os biscoitos à hora do chá, uma vez que se perdeu o hábito de acompanharem o café, são habitualmente apresentados em pratinhos, saídos das ditas caixinhas para quem os faz em casa, ou directamente do pacote para quem os compra já confeccionados.
É tudo uma questão de gosto.
Catálogo de 1911
PS. Depois de publicado no facebook a Cristina Neiva Correio sugeriu que seria mais adequado usar a expressão biscoteira em vez de boleira que eu sempre tinha ouvido.
Catálogo de 1911
Consultei o catálogo dos grande Armazéns Hermínios no Porto de 1911-2 e a designação era «biscouteira». 
Catálogo de 1928-1929
Já no catálogo do Armazéns Grandella  de 1928-9, eram designadas «Biscoiteiras», assim sendo corrijo a designação e agradeço a correção. Com calma vou ver outros catálogos e voltarei a este tema.




[1] Ana Marques Pereira. Licores de Portugal (1880-1980). p. 120.

domingo, 9 de julho de 2017

Batatas floridas

As batatas floridas
O nome atrai-nos imediatamente. Não se trata de uma modernice mas de um prato tradicional da cozinha transmontana que conhecemos tão pouco.
A alimentação habitual nas regiões de Trás-os-Montes tinha por base o que se produzia localmente, pelo que era sazonal por excelência. Na época da floração da abóboras usavam-se as flores para fazer este prato. Para o confeccionar só era preciso cebolas cortadas às rodelas e batatas cortadas em fatias finas.
As flores de abóbora antes de arranjadas
Num tacho colocam-se as cebolas e as batatas em camadas e por cima as flores da abóbora a que se retiram os pés e o interior. Rega-se com azeite e polvilha-se com sal. Tapa-se o tacho e deixa-se cozer em lume brando. Cerca de 15-20 minutos está pronto. Polvilha-se com pimenta preta e serve-se. 
Os vários elementos em camadas
O resultado de um prato tão simples é magnífico. Pode acompanhar-se com o que se quiser, carne ou peixe, embora antigamente, em épocas de maiores dificuldades este fosse um prato em si.
A bola sovada transmontana
Experimentei esta receita feita pela minha amiga Matilde, natural de Pombal, Carrazeda de Ansiães, que transporta o gosto deste prato desde a infância. A completar comemos «bola sovada» (designação que tem a ver com a forma intensa como é amassada), um tipo de pão ázimo, que leva azeite que havia sido trazido de Trás-os-Montes para matar as saudades desta família. Para acompanhar queijo é uma delícia.

É por estas e por outras que me irritam às vezes as modernices bacocas, muitas vezes sem sentido, quando temos pratos tão simples que nunca experimentámos.

quarta-feira, 28 de junho de 2017

Cozinha Saborosa e Prática

 
1956
Há livros que passam despercebidos e não são seguramente os piores. Todas as semanas leio o top 5 do jornal Expresso e não paro de me espantar com os títulos. Publica-se muito e lê-se pouco em Portugal de que resulta muitas obras ficarem desconhecidas, ao passo que outras, menos merecedoras de atenção, são amplamente divulgadas.
1944
Tenho este livro «Cozinha saborosa e Prática» há vários anos e não fosse a beleza da capa não lhe tinha dado importância. Foi publicado em 1956 pela Portugália Editora na sua fase inicial e encontrei novas publicações em 1957 e 58. No início da década de 1960 esta editora tinha escritórios na Avenida da Liberdade, tendo publicado sobretudo nas décadas de 1960 e 1970. 
1956
Nos anos 60 era dirigida por Mário Henriques Leiria e as capas dos livros eram desenhadas pelo João Câmara Leme. A capa deste livro não está assinada mas é provável que seja da sua autoria. Nela se apresenta, em posição central, uma dona de casa a bater um bolo manualmente, tendo à sua frente vários utensílios de cozinha de formas modernas.
1957
O autor desta obra é J. Jamar de nacionalidade espanhola, que publicou vários títulos na área da culinária com receitas muito práticas, dedicadas a donas de casa e sobre o qual nada consegui descobrir. A primeira edição deste livro saiu em Madrid, em 1944, e apresentava 770 receitas. A boa aceitação deste livro fê-lo aumentar o número de receitas que, na edição portuguesa traduzida por Maria Ponce, era de 1100 receitas. 

1958
Em Espanha continuou a ser editado e em 1978 ia já na 19ª edição. Em 1956 publicou Cocina con la olla a presión y batidora eléctrica; em 1964 La cocina internacional; em 1965 La cocina rápida e  em 1961 Menús familiares y de invitados, muitos deles reeditados várias vezes.
1961
Em Portugal, deste autor parece ter sido apenas publicado este título que no jornal República de 18 de Abril de 1956 o anunciava como «um novo livro sobre a agradável arte de bem comer… pelo especialista espanhol J. Jamar… indispensável às boas donas de casa». 
1963
No seu interior podemos encontrar um extenso número de receitas agrupadas por temas, como «cozidos e sopas», «sopas secas», «molhos», «ovos», «peixes», receitas de carne divididas por tipo de animal, «acepipes», «aperitivos quentes» e «doçaria», entre outras, todas de excelente qualidade.
1964
O título era apelativo (que mais se pode desejar do que uma cozinha saborosa e prática) pelo que variantes do mesmo surgiram mais tarde como: «Cozinha rápida e saborosa com microondas Sharp», publicado em 1993 por Maria Helena Gomes ou, ainda mais ambicioso, «Cozinha essencial: saborosa, divertida, rápida, inteligente e com estilo...» da autoria de Sabine Sälzer e  Sebastian Dickhaut, publicado em 2003.
 
1970

1971
Mostramos igualmente imagens das edições espanholas da época, que são também interessantes, pelo que se quiséssemos tirar uma conclusão sobre este texto seria mesmo sobre a importância das capas dos livros como forma de nos atrair para o seu interior.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

O cardo nos Santos Populares

O uso do cardo, ou alcachofra brava, foi uma das práticas que mais se perdeu nos Santos Populares. A tradição dizia que se devia queimar na fogueira a parte florida do cardo que posteriormente era colocado num vaso. Quando este floria novamente era sinal de que o amor era correspondido, provocando uma alegria serena e antevendo na imaginação da jovem a possibilidade de um casamento futuro. 


Nesta capa do livro «Poeira das Cantigas» de 1939, escrito por José Castelo e ilustrado por Mário Costa (1902-1975) representam-se as festas populares com danças à volta da fogueira e, em primeiro plano, o vaso com o manjerico onde desponta o cravo e o cardo.
Hoje resta-nos o manjerico com os cravos com quadras de amor!

quinta-feira, 15 de junho de 2017

Dos rebuçados brancos

Ontem no final do almoço trouxeram no prato a conta e alguns rebuçados brancos envoltos em celofane encarnado. Era uma gentileza habitual nalguns restaurantes, mas foi desaparecendo e agora só se encontra na província.
Estes tinham escrito no papel «Bolas de neve» Nazaré e o dono do restaurante disse-me que devido ao aumento do imposto sobre o açúcar ia deixar de os oferecer. Mostrou-me uns outros, igualmente envoltos em papel idêntico, mas sem qualquer impressão.
Não aprecio especialmente rebuçados mas quando ouço falar em desaparecimento ficou logo em estado de alerta. Lembrava-me de uns rebuçados semelhantes mas que eram de côco e em forma de bola e que penso também já desapareceram.
Quando comecei a pesquisar descobri que imensas pessoas tinham nostalgia destes rebuçados e associavam-nos à infância. Seguramente pessoas muito jovens porque, como vim a descobrir, a sua produção é muito recente em Portugal.
As chamadas «Bolas de neve» são produzidas pela empresa Nazaré, de J. Diniz e Filho, uma fábrica fundada em 1955 em Afife, Viana do Castelo. O pedido de registo desta marca foi feito em Agosto de 2001, mas viram-se envolvidos na oposição do uso da marca por uma outra empresa até 2006, tendo perdido o processo.
A outra empresa era a Vieira de Castro, que teve o seu início em Famalicão em 1943 e que registou um produto semelhante, os «Flocos de neve», em 1991. Com uma produção variada de produtos alimentares, inicialmente mais ligados à confeitaria e posteriormente ao fabrico de bolachas, apresenta hoje um leque variado de produtos que passa pelas amêndoas cobertas e pelos rebuçados. Dentro destes os «Flocos de neve» têm um papel de destaque pelo volume de vendas.
Descobri depois que também o Continente vende uns rebuçados semelhantes chamados «Lágrimas de neve», possivelmente os tais sem letras no papel de que falei anteriormente. No meio das informações surgiram ainda uns rebuçados deste tipo, chamados «Flocos de nieve» Diana e que seriam produzidos em Espanha.
Não me foi possível descobrir o raciocínio por detrás da criação destes rebuçados que, em comum, têm a brancura do produto que o liga à neve e o invólucro transparente encarnado que devia remeter para o Natal, numa época em que ainda se associavam os doces às festas. Mas para haver tanta competição entre os vários rebuçados é porque se trata de um produto de sucesso. 

segunda-feira, 12 de junho de 2017

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Licores de Portugal na Mercearia Santana

A Mercearia Santana, da família Montez, fica situada no centro antigo de Sacavém. O local de comércio e a habitação foram transformados em museu pela equipe do Museu de Sacavém que dinamiza o projecto cultural.
Sobre o espaço em si falarei noutra oportunidade, com maior pormenor.
Hoje quero convidar as pessoas interessadas para estarem presentes amanhã à tarde, dia 10 de junho, para me ouvirem falar sobre licores e degustarem o Arrobe de Arinto, uma cortesia da Master Flavours of Portugal.

O programa cultural pode ser consultado neste link.

Apareçam e aproveitem para visitar o local. São três em um!